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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Surgirá algum revolucionário para os sambas-enredo?


Minha escola de samba, de criança, é a Mangueira. Quando pequeno, eu realmente me importava bastante com aquilo, todo ano. Sabia cantar boa parte dos sambas, lia o caderno especial que o Globo publicava, assistia aos desfiles todos dando minhas notas para cada uma, em cada quesito, e protestava irado contra qualquer décimo tirado da verde-rosa por um jurado obviamente mal-intencionado como se estivesse xingando um juiz que roubasse o Flamengo.

Com o tempo, minha ligação com aquilo, e com a Mangueira, foi diminuindo. E acho que boa parte disso é pelo que aconteceu com os sambas-enredos. A impressão é que qualquer um - qualquer um mesmo! - seria capaz de compor um no nível dos que são ouvidos na Sapucaí, simplesmente fazendo um recorta-e-cola de pedaços de sambas de anos anteriores. São melodias que parecem colchas de retalhos, com letras sem pé nem cabeça, que quem pegar pra ler vai ter até dificuldade de entender do que estão falando. Parece que as escolas se importam cada vez menos com a qualidade das composições, se preocupando apenas com a possibilidade de sucesso fácil na avenida; e, ao que parece, a fórmula que encontraram para isso é acelerar o máximo possível o andamento e emendar refrões de melodias fáceis. O resultado: é cada vez mais difícil assistirmos no dia seguinte aos telejornais mostrando cenas das arquibancadas inteiras de pé, cantando.

Não se ouve mais que "o samba da XXX levantou a Sapucaí!". Ruins, eles tocam cada vez menos fora dos desfiles. E o assunto, quando se fala das escolas, passou a se resumir cada vez mais a aspectos visuais, efeitos especiais nas alegorias, coreografias diferentes e por aí vai. Claro, tudo isso faz parte do show. Mas não são, afinal, "escolas de samba"? Um pouco mais de cuidado com a música não faria mal.

Por isso, este ano, mesmo sem ver tanto dos desfiles, torci um pouco mais do que nos últimos pra Mangueira ao menos voltar no desfile das campeãs. Seu samba não era realmente bom (o do ano passado era melhor), mas a escola ao menos se arriscou tentando algo diferente relacionado ao samba, colocando duas baterias diferentes pra tocar. E assim a música virou protagonista ali, de novo. Não é nada, não é nada, já é alguma coisa.

A última "revolução" que apareceu no carnaval das escolas de samba foi do carnavalesco Paulo Barros, com aquelas alegorias apostando em coreografias humanas no lugar dos efeitos mecânicos e luminosos mais comuns. A próxima bem que podia ser de alguém tentando algo realmente diferente nos sambas.


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Por este lado, foi legal a campeã deste ano ter sido a Vila Isabel, com um samba-enredo com Martinho da Vila e Arlindo Cruz entre os autores, reconhecido pela crítica toda como o melhor do ano. Realmente, é melhor que a média atual. Mas não é daqueles inesquecíveis, que a gente vai saber cantar e ouvir em blocos daqui a 10 anos, algo que parece cada vez mais difícil mesmo de acontecer.

Hoje, além da Mangueira, passei a simpatizar bastante mesmo com a União da Ilha. Um tanto por influência do meu irmão, mas um tanto também pelo seu histórico de sambas-enredo. Não tem nenhum título no currículo, não é das maiores torcidas, e ainda assim tem uma porção de sambas lembrados por aí. Vê só:

Domingo, de 1977:


O amanhã, de 1978:


É hoje, de 1982:


Festa profana, de 1989:


De bar em bar, Didi, um poeta, de 1991:



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Pelo que ouço falar, a última revolução nos sambas-enredo aconteceu em 1971. Festa para um rei negro, do Salgueiro, saiu do padrão da época - justamente tentando apostar em versos mais simples e um refrão capaz de levantar todo mundo com facilidade, em contraste com as letras mais longas e complicadas de até então. Zuzuca, o compositor, acertou em cheio mesmo no refrão, ouvido até hoje (com as mais diversas adaptações na letra) em tudo que é lugar. Mas, escutando agora... O resto da melodia é bem chatinha, né não?

Um comentário:

André Amaral disse...

Também sinto falta daqueles sambas históricos que levantavam a arquibancada e que, quando se percebe, já está cantando no outro dia e quando ouve nos anos seguintes sabe a letra toda.

Ano que vem ninguém vai lembrar de samba algum, tirando esse lindo da Vila.

Mesmo que seja patrocinado, dá pra fazer um bom samba, como a Vila provou agora, mas vai ficar cada vez mais raro.

Os sambas históricos da União da Ilha não tinha um patrocinador. Era sobre um "domingo no Rio de Janeiro" ou "como será o meu futuro". Temas simples, do cotidiano carioca, da vida.

Imagina a arquibancada pulando e cantando é hoje o dia da alegria. Deve ter sido emocionante.

Hoje virou mais um teatro, só carros gigantes é o que se importa.