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quarta-feira, 13 de abril de 2011

Os melhores shows da minha vida, e a chance de rever dois deles

Eis que minha cabeça se ocupa esta semana com o repeteco de dois dos shows mais significativos a que assisti em minha vida. Na virada de segunda pra terça, me plantei na frente do computador pra garantir o ingresso para o show de Paul McCartney - estive no Morumbi ano passado e agora terei a chance de vê-lo no Engenhão. E amanhã é dia de Skatalites, no mesmo Circo Voador em que pude vê-los em 2010.

Depois do emocionante show no Morumbi, fiquei pensando em como devemos ser gratos por ver um cara como ele - e como os Skatalites -, depois de décadas de carreira, ainda sair em turnê por aí, nos dando a chance de ouvir aquelas músicas ao vivo. E ele faz direito: aos 70 anos, ainda faz um show de umas três horas, cantando bem o tempo todo, tocando vários instrumentos, ocupando o palco gigante. Não se nega a tocar os mesmos clássicos de tanto tempo - Yesterday, Hey Jude, Let it be, Eleanor Rigby, estão todas lá -, mas também coloca no meio até músicas de sua produção mais recente. No show do Morumbi, rolou a boa Highway, do disco Electric arguments (2008), de seu projeto The Fireman. E lá estava eu e gente de todo o tipo e idade, felizes de terem aquela oportunidade.

Ao mesmo tempo, entendi que qualquer um que faça música e consiga tocar outras pessoas de alguma forma devem se tocar da importância daquilo. Conseguir que algo que você escreveu e sentiu faça parte da vida dos outros, faça eles se emocionarem de alguma forma, não é pouca coisa. Creio que Paul, e os Skatalites, tenham a noção completa disso.

Mas então: pensando no Paul, nos Skatalites, em como a chance de assistir a um show desses imperdíveis faz a gente ficar tão envolvido com aquilo no nosso dia-a-dia, resolvi escrever aqui uma lista pouco interessante para todo o resto do mundo, mas que junta os 11 shows mais significativos a que já assisti - por motivos obviamente pessoais, claro. Iam ser 10, na verdade, mas tive dificuldades de cortar um deles.



Jorge Ben Jor no Arpoador
Não sei dizer o ano, mas foi um pouco antes dele estourar W/Brasil e se reinventar mais uma vez pro grande público. Foi um show que mudou bastante minha, digamos, vida musical. Eu era garoto, ouvia muito rádio - basicamente a Transamérica - e não tava nem um pouco a fim de ver aquele cara que eu não conhecia direito e achava, ahn, coisa de velho, que "não tocava em lugar nenhum". Minha mãe, no entanto, fez eu ir mesmo assim e, por conta daquele show, passei a procurar e dar chance a muito mais coisa que não tava na rádio, que meus amigos não gostavam, enfim. A música que eu mais me lembro ter chamado a minha atenção naquele dia foi Oé oé (Faz ocarro de boi na estrada) - que, ao vivo, é bem mais rápida do que na versão de estúdio do vídeo abaixo.

É interessante ainda lembrar que armaram um palco bem grande praquele show gratuito ali no Arpoador. Hoje em dia a faixa de areia ali está longe de ter espaço pra algo assim.




Paralamas na praia de Ipanema
Já fui a uma boa quantidade de shows do Paralamas, mas aquele foi bastante inesquecível. Foi na turnê que depois, gravada em São Paulo, virou o disco Vamo batê lata - o show, então, deve ter sido em 1994. Eles deram uma entrevista pro JB antes dizendo que pretendiam tocar enquanto o público ainda quisesse ouvir, e assim fizeram: não sei nem quantos bis eles deram, no final o Herbert ia avisando que não sabia se ainda lembraria de como tocar cada música que ia puxando. Rolava no show muita música legal que ficou de fora do disco, como Pólvora ou uma versão da Melô do marinheiro citando Boom Shak-a-lak no meio. Pena que não encontro registro deste show no YouTube - este aí de baixo, gravado na Argentina, é da mesma época.




Ramones no Metropolitan
Foi aquele show da última turnê dos Ramones, em 1996, que me fez pela primeira vez encarar o ônibus para o longínquo Metropolitan (que, de lá pra cá, mudou de nome trocentas vezes - acho que hoje é Citibank Hall, não é isso?). Eu e meu irmão não tínhamos idade pra dirigir e não tínhamos muita certeza de como chegar lá de ônibus - saltamos no meio do caminho, seguindo dois caras de camisa de banda que tínhamos certeza que também estavam indo pra lá, e quebramos a cara. O engraçado é que, em seguida, duas meninas que não conhecíamos e também desceram do ônibus no lugar errado vieram nos dizer que também estavam nos seguindo, achando que a gente sabia o que estava fazendo. Mas não tinha muito mistério, deu tudo certo e chegamos lá direitinho.

Show do Ramones é aquilo, né? 1-2-3-4 e vamulá, uma atrás da outra, não tem erro. No final, eu tinha pulado e suado tanto que parecia que tinha mergulhado de roupa em alguma piscina. Ainda tivemos que encarar a volta também de ônibus, tarde da noite, enxarcados pelo suor e pela chuva que caía no ponto. Mas foi bacana, conhecemos um baiano que tinha despencado de Salvador só pra ver os Ramones pela última vez e havia sido recompensado conseguindo a luva do Joey Ramone.

Esse vídeo é exatamente deste show:




Chico Buarque no Canecão
Assisti ao Chico ao vivo no Canecão duas vezes - a mais recente, acho que ano passado ou retrasado, foi bastante boa. Mas, na minha lembrança, a anterior (acho que em 1999, fomos a família toda, numa mesa com uma visão bem boa do palco), foi melhor. Ou ao menos teve mais a sensação de novidade. Fato é que compramos o disco duplo lá mesmo, no Canecão, e ouvi ele - que reproduzia fielmente o show, completinho, com direito até a gritos femininos de "lindo" em momentos bem parecidos com os que rolaram naquele dia - muito ao longo dos ano. Adoro Injuriado, acho ótima a versão que está ali de O meu amor e ouvir Vai passar no finalzinho também é bem bacana. Nos dois shows, ele foi de João e Maria para encerrar, que é uma música realmente bonita de doer. Nesse último, depois de um set em que colocou muita coisa mais ou menos conhecida, ele terminou apelando com uma sequência daqueles sambas que todo mundo sabe cantar e adora, que é pra saírem todos de sorriso no rosto. O cara é o cara.

Esse é do show de 2007:




Ultraje a Rigor no Ballroom
O Ultraje sempre foi uma das minhas bandas preferidas e é muito raro virem ao Rio pra tocar. Por isso, o show deles no saudoso Ballroom  - onde hoje fica um prédio residencial, com um supermercado Zona Sul embaixo e o insistente Oliveira com sua barraca de cachorro-quente em frente - era algo de imperdível. E show lá, embora o som nunca fosse o ideal, era muito bom, você via a banda muito de perto. Eles tocaram tudo o que se poderia querer, incluindo algumas mais obscuras como Ponto de ônibus e um cover de Ramones. Se bem que, na verdade, eu e o Bruno Soneca passamos boa parte do show perturbando o Roger com gritos para que tocassem Maximilian Sheldon, no que não fomos atendidos. A possibilidade disso acontecer, de qualquer forma, era realmente remota na época (mas eles hoje em dia tocam ela nos shows e até a incluíram no mais ou menos recente Acústico MTV). Ah, saí de lá com um palheta do Roger, pega no ar, que depois acabei perdendo sei lá como.

É mesmo uma pena que aquela época não fosse como hoje, em que todos têm uma câmera na mão - não há registro em vídeo daqueles shows. Mas ó eles tocando Maximilian Sheldon ao vivo num show recente:




Móveis Coloniais de Acaju em Brasília
Era o final de 2005 e estávamos, eu e o pessoal do Coquetel Acapulco, banda de que orgulhosamente fiz parte, nos preparativos finais para nossos primeiros shows. Estavam marcados um numa garagem na Lapa, outro no pequeno Saloon, em Botafogo, ambos no mesmo fim de semana. Eu andava ouvindo bastante algumas músicas que uma banda de Brasília, que eu tinha conhecido pela fita demo anos antes, tinha colocado como prévia de seu primeiro disco completo. E, nessa, o Leeke - na época, trombonista do Coquetel -, me falou que soube que o Móveis Coloniais de Acaju tava vindo fazer uns shows no Rio de Janeiro, justamente no nosso fim de semana de estreia. Será que a gente não conseguiria dar um jeito de colocá-los pra tocar com a gente?

Entramos em contato e rolou - foram os primeiros shows do Móveis no Rio de Janeiro, em lugares realmente pequenos, ainda mais considerando a quantidade de integrantes da banda. Eu tinha gostado do que tinha ouvido gravado, mas não tinha a menor ideia do que era o show deles - e, vocês sabem, é no show que eles mostram tudo o que tem pra mostrar. O primeiro, na Lapa, já pegou todo mundo de surpresa com a sinistreza toda da coisa; no terceiro (teve um outro entre os dois, numa casa que já fechou, a London Burning), o Saloon ultralotou de gente curiosa pra ver os caras, de tanto que ouviram falar dos dois anteriores - fora os que tavam lá pra ver de novo. Eles eram realmente muito bons. São, né?

Acontece que, fãs de ska que são, eles também gostaram dos showzinhos do Coquetel e nos convidaram pra tocar com eles em Brasília, na primeira edição de uma festa que tavam montando, o Móveis Convida. E a gente foi, sem ter ideia do que era a parada. E lá a gente descobriu que, em Brasília, eles já eram megaastros. Matéria de meia página falando do show no Correio Braziliense, TV Record dando entrada ao vivo do local, equipe da Globo gravando matéria pro Fantástico... E, se os shows no Rio diante de gente que não os conhecia já tinha sido impressionante, lá a parada era elevada ao quadrado, já que estavam jogando em casa, diante de sua torcida, centenas de pessoas. Os caras eram independentes, como são até hoje, e caramba!, vejam só o que eles conseguem!

Hoje, claro, a coisa já cresceu bastante (vindo pro trabalho de manhã, ouvi música deles tocando na Oi FM, e parece que estão até em trilha de novela da Globo), e ainda assim deve ter bastante gente sendo pega de surpresa por um show dos caras, indo desavisado como eu fui daquelas vezes. É lamentável que eu não ache nada de vídeo nem daqueles primeiros shows no Rio, nem do primeiro Móveis Convida em Brasília (isso é bem impressionante, até). Mas esse aí embaixo, gravado em 2006 numa FNac de São Paulo, não deixa de ter um tanto do clima:




Slackers no Teatro Odisseia
Esse também tá no mesmo contexto da empolgação com o início dos shows do Coquetel - foi mesmo uma fase muito divertida da minha vida, cheia de gente nova e sensacional e coisas novas e sensacionais acontecendo. O Slackers era meio que banda da vida de parte do Coquetel e, quando eu soube que eles tavam vindo tocar em São Paulo, pensei: de repente, assim como trouxemos o Móveis tão pouco tempo antes, a gente podia trazer eles também pro Rio, né? Por que não?

Mas o trabalho foi bem maior. De qualquer forma, a empreitada coletiva da banda deu certo, e o Odisseia ficou bem cheio de gente naquele domingo pra ver uma banda que, no duro, a maioria não conhecia lá muito bem. Lembro que, no release que montamos pra divulgar a parada, a gente tinha que ficar explicando bem o que era ska, pra depois explicar por que o Slackers era importante dentro do ska. Por sorte, os caras são bons pra cacete no palco e a noite foi sensacional, com direito a versão de Minha menina, do Jorge Ben, cantada em português meio que de surpresa pra todo mundo (embora eu soubesse que tinha rolado em São Paulo no dia anterior). Isso foi em janeiro de 2006 e, depois daquilo, bandas como eles começaram a aparecer por aqui com mais frequência (eles mesmos voltaram duas vezes), sinal de que a gente plantou uma sementinha boa ali.

Aliás, soube que tem Ska Cubano em São Paulo por agora. Bem que alguém podia ter tido a ideia de trazê-los pra cá, hein?






Lasciva Lula no Teatro Odisseia
Conheci o Lasciva Lula bem por acaso: o Felipe Schery, vocalista, guitarrista e compositor da banda, era meu veterano na Escola de Comunicação da UFRJ e passou quase que inteira a longa viagem de ônibus para Maceió, para onde íamos para um ENECOM, animando a galera no violão. Aí ele disse que tinha uma banda, tinha a fitinha demo pra vender e eu comprei. Acho que por dois reais.

Acho que, desde então, o Lasciva foi a banda independente do Rio que eu mais gostei de acompanhar. Originais, letras ótimas, enfim, eram realmente muito bons. Era uma banda que eu gostava de ouvir e gostava de apresentar pros outros - e normalmente os outros gostavam também. Em 2007, quando decidiram parar, deram um belo presente para os fãs como eu: um show de despedida no Odisseia (que lotou muito bem lotado, numa noite de terça-feira) em que tocaram TODAS as músicas que gravaram, até as daquela demo que eu comprei a caminho de Maceió. Realizaram inclusive o sonho da minha digníssima Fabi de ouvir Pop song ao vivo. Foi lindo.




Paulinho da Viola no Canecão, Skatalites no Circo Voador, Paul McCartney no Morumbi
Eu deixei de ver alguns shows que não gostaria de ter deixado. Não vi o Chico Science, não vi a Legião Urbana, não vi o B. B. King (este último por babaquice minha mesmo) - embora este último ainda esteja por aí, então quem sabe? Mas enfim: tem shows que, quando temos a chance de assistir, não devemos deixar passar. É o caso do Paulinho da Viola, do Skatalites, do Paul McCartney. Os caras são a história da música, e vendo-os ao vivo - como são bons ao vivo! -, você entende o porquê. Ano passado foi bacana, tive a chance de resolver estas três pendências. Sobre o do Paulinho, o Paulo escreveu aqui; o do Skatalites, vocês também podem ler minhas impressões aqui; e o do Paul, eu falei um pouquinho ali em cima.








Então: Skatalites e o Paul tão por aí de volta, não percam a chance.

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