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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Sobre Simonal, André Midani - e Don Robalo!

Poucos dias depois de assistir ao Ninguém sabe o duro que eu dei, filme sobre Wilson Simonal que comentei tem pouco tempo aqui no blog, comecei a ler no ônibus um livro que havia ganho de Natal: Música, ídolos e poder - Do vinil ao download, de André Midani, ex-executivo de diversas grandes gravadoras.

(Um parêntese: o tempo que passo no ônibus talvez seja, junto com o que passo no banho, o mais produtivo de meu dia. É quando tenho mais ideias pra textos e quadrinhos, por exemplo. Várias músicas que compus, foi também neste tempo - depois tiro no violão o que já tinha imaginado por lá. Imagino também arranjos, frases... E, de vez em quando, leio também. Mas não no banho, porque ia molhar o papel.)

Midani vai contando a história de sua vida - não só profissional; pega desde a infância, mostrando até quando assistiu in loco ao desembarque das forças aliadas na Normandia, no dia D da II Guerra Mundial - em um texto bem fácil e divertido de ler. Ainda estou talvez no terço inicial do livro, mas já recomendo a leitura.

Voltando rapidinho ao
Ninguém sabe o duro que eu dei. Saí do filme com a impressão de que Simonal não tinha sido mesmo um informante da ditadura; que devia ter tido uma relação pessoal com gente do DOPS (quem sabe um segurança que também trabalhasse lá, ou coisa assim), e que por isso conseguira, como favor pessoal, que dessem um corretivo no contador com que tinha problemas. E sua relação com esse pessoal ficava por aí - nada "institucional" mesmo com o regime. Depois do lamentável episódio da surra e sequestro do contador (que, na boa, já justificaria uma enorme punição ao Simonal), por uma série de circunstâncias, teria pego nele a fama de dedo-duro, de colaborador da ditadura, de maneira indevida. É a conclusão com que saí do cinema.

(De novo: é um filmaço! Quem não viu ainda, tá dando mole.)

Agora, porque estou falando do livro por conta do filme. Em determinado momento de sua narrativa, Midani conta sobre um grupo que montou com diversos jornalistas, escritores, pensadores, para servir como uma consultoria para ajudá-lo em decisões da gravadora que dirigia na época. Leiam este trecho - lembrando que o livro foi escrito antes do filme sair:

O primeiro assunto que levei (ao grupo) foi certamente o mais escabroso: Simonal vivia marginalizado e odiado sob a suspeita de ter denunciado seus colegas "de esquerda" para o DOPS, sofrendo um boicote implacável e sendo perseguido sem trégua pela imprensa como o dedo-duro mais hediondo do país. (...) Marcos Lázaro, o poderoso empresário de Roberto Carlos e de Elis Regina, tinha sido requisitado pelos militares para comunicar à nossa empresa que seria um gesto muito apreciado contratarmos Simonal naquele momento difícil de sua carreira.

Entendi que, politicamente, seria conveniente contratar Simonal - não só por ser um belo artista, mas também porque a sua contratação daria uma certa paz para o João Carlos, nos seus intermináveis tratos com a censura. Porém, o delicado era anunciar aquela contratação para certos artistas engajados, como Chico Buarque, por exemplo, que poderia simplesmente sair da companhia em sinal de protesto.

Pois bem: a ditadura tentou, portanto,  interceder para salvar a carreira de Simonal. Isso não sugere que haveria uma relação um tantinho mais estreita entre o regime e o artista?

Conversando com o bravo Marco Homobono, dos Djangos, ele levantou a hipótese de que talvez, quem sabe, o interesse da ditadura seria simplesmente em voltar a ter um artista menos político, mais, ahn, alienante, de novo em voga. É, quem sabe.

Mas, nessa, fiquei com uma pulga atrás da orelha.


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Lembrando que este espaço é também pra falar de nossa banda: dêem uma olhada na coluna da direita do blog. Lá, dois campos novos. 

O mais importante, a Agenda - reparem que o show de estreia do Don Robalo já está marcado para sábado, dia 4 de julho. Alô povão, agora é sério! 

Em breve, mais informações sobre local, horário, preços e quem mais estará na festa. Pra ficar por dentro, fora passar por aqui de vez em quando, você pode prestar atenção no outro campo novo da coluna da direita: o que fala em receber notícias do Don Robalo. Mandando um e-mail pra donrobalo-subscribe@yahoogroups.com, você entra na lista dos que receberão novidades robálicas fresquinhas no conforto de sua casa (ou trabalho, ou lan house, sei lá).

E, daqui pra frente, as novidades da banda deverão vir aparecendo por aqui com mais frequência, até o dia do show. 

Um comentário:

bibliografia disse...

muito acurado esse texto, andré. vou twittá-lo porque está muito bom. essa interseção de informações enriquece muito o debate acerca do ocaso de simonal.
ninguém até agora tinha citado o livro do midani, que, como você mostrou adiciona um fato no mínimo intrigante.


agora, para ser sincero, a parte que eu mais gostei e mais me identifiquei foi a parte em que você fala que produz muito no ônibus. eu também sou assim. aháhahá. no dia em que eu comprar um carro, ou morar perto do trabalho, nunca mais vou ler livros, não vou mais fazer músicas, nem arranjos para elas ou ter idéias para historinhas ou sei lá mais o quê!

grande abraço, galera!